segunda-feira, 6 de abril de 2015

Horas nossas de cada dia


Sai a lua e Taisa não vem pra rua.
Ela demora.
E porque demora
a gente apressa de sua presença.
É que ela se perde no tempo do remanche.
Mas quando ela vem, uma recompensa:
Um sorriso descabido
rindo do tempo que não é o dela.
O tempo é a medida que nos presenteia ou nos domina?
A gente aprende a fazer hora da vida.

Irmandade


Hoje eu acordei cedinho
Abri a porta do seu quarto
E você estava lá:
Ufa!
Eu estava cansada
De não ter que dividir a saboneteira
do lado do chuveiro,
a pia do banheiro,
a comida de mamãe
e o cuidado de vovó.
Você de novo aqui
é bom pra dividir,
somar, multiplicar...
Mas se for pra subtrair,
que seja a saudade.
Coisa boa é na vida
nossa sempre irmandade.

Tua vinda


Tua vinda é bem vinda
Tem teto e afeto
abrigo e comida.
Onde dormiu a saudade,
ausência sentida,
acordamos alegria:
Tua chegada nunca foi partida.
Nosso amor
É tua morada garantida.

Sobrevida


Estar nos seus braços
Me traz segurança
Inquieta e mansa
Não porque são os braços do macho.
Poderíamos ser nós dois duas fêmeas
Almas gêmeas
Tempo-espaço.

Me encontrar no seu abraço
É fazer da vida o laço
Que descansa a sobrevida

O velho e o pé de serra

Ele não é de muitas palavras
Só de serenidades.
Meio sorriso no olho
Toda a paciência de quem se sabe
Pedra, pé de serra e pasto.
Cachimbo e uma caneca d'água
Paisagem raiz profunda e semente
Que cultiva a vida com alma
E faz desacelerar a vida da gente

Gozo


Entre as minhas pernas
Feito carne amaciada
e crua.
Nua feito lua
Prateada em minhas pernas.
Os seios ouriçados,
O corpo inteiro ferve.
Treme.
Enrijece.
Os olhos pedem
Como quem pede ao garçom
uma dose a mais,
à noite, grita: não passe!
Infinita é uma sede que nem esta.

Buquê

Dedicado às queridas Hionne e Ellen. Que tenham uma feliz vida juntas! 


A que nasce da pedra da serra mais alta,
A que nasce no buraco do asfalto
[numa rua vagabunda]
perto lá de casa.
É tudo flor, é a mesma.
Quando é cheiro de aconchego
Gozo e café bem passado,
É trilha sonora que vibra,
Cintila, dilata a pupila.
É flor que vira estrela,
Sol e lua dentro da barriga,
Do sexo, da virilha.
Quando a flor (r)existe
[porque só respirar é tão pouco]
faz querer dividir o que é melhor
em uma pra somar em outra
sem se importar com os outros.
- Comida sem carne!
Mais uma escova no banheiro.
E a decoração de natal
[Que sempre achara brega]
está lá: in-con-tes-tá-vel!
- Vamos comprar um karaokê pra sala?
Fizeram o mesmo corte de cabelo.
Tava tão claro nos sorrisos
O que estavam mais do que prontas
para anunciar:
A flor mais bonita,
O buquê do direito de amar iguais
Vencendo a dor e a negação
Dessa sociedade incapaz.
Quando o amor vence o medo,
É a celebração da vida,
A flor maior que o tabu!
E que venham mais dias
de beijos e desejos
além das páginas dos jornais.
Nos muros do preconceito
escrevam dias de paz
Na casa que escolheram
Para juntas serem mais.

Varanda

O meu peito é uma janela
Que dá para o sol.
Em peito solar
Com vista pro mar.
É o próprio mar
Beirando infinito.

Lua e noite

A lua brilha como sempre
A noite me parece fresca como nunca
E a vontade de te ter aqui
Tem mais brilho e frescor
Do que antes.
Sem apagar a luz
Sorrio pensando
Quanto de noite e lua
Somos nós dois.

Humanices

Não são calçadas
Nem pilares
Nem metrôs
Nem pontes.
Dormem rua,
Acordam rua.
São carne crua.
E carne humana.