terça-feira, 17 de março de 2015

Não me chame de musa


Não me chame de musa
Ser musa não é legal
Musa é coisa de ficar em moldura
Altar ou pedestal.
E a gente sabe quem a gente é:
A gente quer é ser igual
Sem se dobrar ao padrão
Dessa beleza universal.
A gente é muito carne e osso
Pra ser anjo ou adereço
Do seu romance ou carnaval.
Força, luta e esperança
Contra as grades rudes e sutis
Desta sociedade patriarcal
Que me vende e me joga no lixo
Tal e qual um coisa qualquer.
Quer saber como me chamar?
Me chame companheira, amiga, irmã,
Mulher!

quinta-feira, 12 de março de 2015

Quando passa das dez

Quando passa das dez
Você volta pra casa
Abre a porta
E vê que tudo é nada.
E nada é tudo que você tem.
Você procura a mãe,
o gato, o irmão... Alguém?
Você procura por você
Em nome de quem?
Já é tão tarde
E tantas noites ainda virão.
Você mora de favor.
Você só quer amor
mas também precisa de pão.
Teu ofício, teu vício,
Tua poesia não vale um tostão.
Enquanto os teus pertences
São uns livros que você nem lê mais,
tá sempre correndo pra dar conta
De pagar a conta da cerveja barata
Que amortece de paz e alivia o cansaço.
Trabalhadora não é feita de aço.
São dias difíceis para se problematizar
Quando você não tem o controle do carro,
As chaves do portão.
Os papeis estão todos espalhados.
Se morrer hoje onde teu nome estará escrito?
Sem a luta ninguém deixa legado.
Há quem deixe herança:
Ouros, ilhas, países...
Existem países que há séculos só fomentam a guerra.
Quantas guerras ainda existirão?
Contra a guerra a gente é flor ou canhão?
Em meio aos tiros
A gente vai ao chão.
E num delírio lembra de fazer uma oração:
Se amanhã eu acordar viva,
Me dê mais água do que sede,
Mais fome que comida,
Mais esperança que saída,
Mais pecado que salvação.
Porque saciada é quem não vive a contradição
Dos quereres e não teres
Da loucura que é ter razão.
A graça é, assim, clarear a visão
E acender a fé
Para enfrentar a escuridão de lá...
... Dos dias que não conhecemos
E que não sabemos alcançar.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Salsa, cebola, cebolinha

Salsa
Cebola
Cebolinha
O meu tempo
O meu tempero
O meu trato
A minha cozinha
O seu prato?
Meu trabalho!
Não é qualquer favor
Não é só por amor
Nem obrigação!
Tão trabalho quanto do tocador de violão
E como o de quem passou 4 anos na universidade!
Meu esforço.
Minha habilidade.
É claro que tem valor!
Tão trabalho quanto o seu, doutor!
Quem te alimenta?
O meu tempo
O meu tempero
O meu trato
A minha cozinha
O seu prato?
Meu trabalho!

Pescadoras

O sol saindo:
Lá vão os braços da terra pro mar.
Esperança nos olhos,
Vão pescar, vão pescar!
Elas trazem os frutos do trabalho.
Pescadoras são braços do mar na terra:
Tecendo redes de sonhos
E da igualdade urgente
Que, enfim, liberta!

O corpo pede

Balança!
O corpo é quem pede!
Balança!
Feliz, obedece!
Balança!
Cabeça, juízo?
Quem não cansa,
Sabe que é preciso:
Balança! Balança! Balança!

A vida não para.
Balança!
Que ritmo toca?
Balança!
Desejo e vício.
Quem cansa,
Sabe que é preciso
Balança! Balança! Balança!

A música manda
Balança!
Corpo solto no ar.
Balança!
Explodindo...
Em ecos fluindo
Balança!
O corpo quer falar!
Balança!
E no balançar
A vida é dança.
Esperança! Esperança! Esperança!


Noêmia


Noêmia na roda de adultos
Queria ler o que aprendeu na escola.
Mas mãe mandou chamar Noêmia:
- Sai daí, menina! Venha cá!
Limpe a mesa da cozinha.
Tem casa pra você arrumar.
O irmão, da mesma idade,
Na roda continuou.
O pai de Noêmia achou graça:
- Mas que menina metida!
A escola não ensina
Qual é o seu lugar?
Noêmia, cedo, entendeu
Que saber das letras,
dividir e somar
Não era suficiente
Pra ela estar onde quer estar.
Noêmia se tornou feminista.

Sem licença


Minha poesia não segue etiqueta.
Ela grita
Ela fede
Ela cheira
À cidade
Ao campo
À favela
À bebida
Ao povo
Ao gozo
À dor
À lágrima
À festa
À vida
E à morte.
Ela grita, ela assopra, ela morde.
E pro seu azar ou sorte,
Minha poesia não pede licença.
Ela faz passagem!

sábado, 19 de abril de 2014

Quadrilha da morte

João que matou Teresa -
Porque desconfiava de traição -
Foi morto por Raimundo,
Em vingança à morte da irmã.
Confuso e transtornado, aproveitou o embalo,
E numa noite escura e fria,
Raimundo matou Maria
Que perambulava pelas ruas -
Drogada e prostituída -
Largada após a copa do mundo.
Teve seu corpo estirado ao lado do de Joaquim - por acaso -
Preto, pobre e favelado,
Apanhador de carteiras,
Que havia sido torturado até não lhe restar um sopro mais
Por um grupo de "cidadãos da paz".
Para Joaquim e Maria não houve perícia: os corpos ali eram dois gastos a menos das políticas do governo.
O pai de João, procurando por justiça,
Pagou caro à polícia pra fazer perseguição.
Acharam Raimundo no "quinto dos inferno" às 6h da manhã.
Foi tiro! Pow! Grito. Bala achada e bala perdida
Que atingiu, inclusive, Lili que tava indo pra faculdade e queria ser bailarina
E que não tinha entrado na história ainda - só por uma questão de tempo.
Restando apenas o pai de João,
Guardado o seu nome em sigilo,
Para manter a ordem limpa da chacina:
Bandido bom é bandido sem vida.
Aliás, vida é coisa difícil de se promover.
Quem vale viver?
Preferível é estar do lado de quem decide.
- Mais fácil é matar o problema,
Diz a indústria das armas, o discurso da meritocracia e o fazedor de medo, a mídia,
Que alimentam o homem bom:
É mais normal que se faça esta quadrilha de morte,
Ao invés da de Drummond.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

V i n t e e n o v e

Te dei 29 beijos.
Mas 29 vezes eu falhei.
Porque nos 29 sorrisos que me deu,
29 vezes eu acordei.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Cotidiano



Hoje, ainda hoje, quando me olho
Vejo um abismo cavado pela dor da ausência
Que enfia a mão no meu peito
E leva à boca da saudade
pedaços de mim mastigados
pelos dentes das horas
que não tenho ao seu lado.

Minha vida segue, então,
baseada em dois pequenos poemas:
Eu e você.

Cabe o mundo em cada um.
O universo entre nós.
E um tempo que flutua -
Sucessão de sóis e luas -
Enquanto não desatamos os nós.