domingo, 14 de agosto de 2011

Todo coração - O AMOR Mayakovsky

"O coração tem domicílio no peito.
Comigo a anatomia ficou louca.
Sou todo coração" Vladmir Mayakovsky



Vladimir Mayakovsky - 1893-1930

O poeta russo que aos 15 anos ingressou na facção bolchevique do Partido Social-Democrático Operário Russo foi um homem de grandes paixões, lírico, épico e satírico. Em 1930 'suicidou-se' com um tiro - acredita-se num suicídio forjado por motivos políticos. 
Em sua obra, Mayakovsky empregou linguagens do dia a dia, em um estilo Cubo-futurismo e transracional. Sua poesia comove por ser de uma sensibilidade imensurável e pela sua forma de enxergar o amor e o mundo:
  
"Cada um ao nascer
traz sua dose de amor,
mas os empregos,
o dinheiro,
tudo isso,
nos resseca o solo do coração.
Sobre o coração levamos o corpo,
sobre o corpo a camisa,
mas isto é pouco.
Alguém
imbecilmente
inventou os punhos
e sobre os peitos
fez correr o amido de engomar. Quando velhos se arrependem.
A mulher se pinta.
O homem faz ginástica
pelo sistema Muller.
Mas é tarde.
A pele enche-se de rugas.
O amor floresce,
floresce,
e depois desfolha".

O Amor é um dos poemas mais belos do Mayakosvsky - uma mensagem de esperança no mundo, e no amor - como se este fosse uma mulher-fênix. E porque não também fala da mulher, de sua condição de mulher, de seu ressucitar...
Caetano, que não é besta, conhecendo a obra deste poeta tão entregue, musicou O Amor para Gal Costa cantar. O resultado é esta música belíssima que eu deixo aqui para que você também possa, assim como eu, refletir e se emocionar.

O Amor
Gal Costa
Composição: Caetano Veloso (baseado em poema de Vladimir Maiakovski)
Talvez
Quem sabe
Um dia
Por uma alameda
Do zoológico
Ela também chegará
Ela que também
Amava os animais
Entrará sorridente
Assim como está
Na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita
Ela é tão bonita
Que na certa
Eles a ressuscitarão
O século trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar
Tudo o que não
Podemos amar na vida
Com o estrelar
Das noites inumeráveis
Ressuscita-me
Ainda
Que mais não seja
Porque sou poeta
E ansiava o futuro
Ressuscita-me
Lutando
Contra as misérias
Do cotidiano
Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me
Quero acabar de viver
O que me cabe
Minha vida
Para que não mais
Existam amores servis
Ressuscita-me
Para que ninguém mais
Tenha de sacrificar-se
Por uma casa
Um buraco
Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme
E o pai
Seja pelo menos
O Universo
E a mãe
Seja no mínimo
A Terra
A Terra
A Terra

4 comentários:

Primeira Pessoa disse...

belissima escolha...
e esta grvação da gal é muito boa.
existe uma versao mais recente na voz de renato braz. se ainda nao conhece, conheça. é de arrepiar.

abraçao do

roberto.

Macabea de La Mancha disse...

Conheço sim a versão do Renato Braz - a partir dela é que busquei mais do Mayakovsky. É indescritível a experiência de ouvir O Amor.

Obrigada pela visita e pela dica.

Abraço da Macabéa

João paulo disse...

A arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forjá-lo.
Maiakovsky

luiz gustavo disse...

urna




tu
amor

que corrói-me
a língua sem saber do sabor
da vida

destrói-me
a irromper nervos e inflama
como raízes e ramos
de uma árvore seca em cãibra
a estender seus tentáculos estranhos e deixa-me à míngua

cancro de minhas entranhas
que me domina

tu
a(r)
dor

sempre presente
desconforta-me
em teias e arcanos
a tua ronda

pressente e brota abrupta
e cresce serena à sombra
rubra podre e bruta

cancro de minhas entranhas
que me domina

tu
amor

que rompe-me
o tempo severo ostra ávida
ferida em crosta de larva
à véspera curva da língua
corpo ácido que sangra
como pedra áspera intriga
a lágrima pura e precisa

cancro de minhas entranhas
que me domina

sob
um relógio
tedioso e suculento
os ossos dormem nos umbr
ais do temp(l)o
à espera desesperada
das horas que me consomem

- o que contemplo agora ?

um poeta embriagado
que se extermina
pelas pálpebras
pelo ventre
pela língua !?

cancro de minhas entranhas
que me domina

na urna
onde minha vida
será revolvida
em breve estará em sopro
escrito:

- o meu grito -

" aqui jaz um sonho
de amor - vivido intensamente -
que se perdeu nos vãos do tempo.“


www.escarceunario.blogspot.com